Janeiro Branco: Fapeal investe em estudos sobre saúde mental

Projetos trabalham abordagens inovadoras para lidar com risco de suicídio

Dr. Tiago Andrade e Dr. Daniel Coimbra

Criar uma cultura da saúde mental, por meio de boa informação e contato humano: Para isso existe a campanha Janeiro Branco, quando psicólogos de todo o país engajam muito de suas atividades profissionais e tempo livre na causa da prevenção, se aproximando diretamente da população e também construindo diálogos na mídia.

A visibilidade do tema, historicamente cercado de tabus, vem aumentando nos últimos anos graças a esse tipo de iniciativa pública, geralmente capitaneada pelos próprios profissionais da área. Mas, se o Janeiro Branco é um esforço voltado ao processo de gradativa mudança de cultura, a questão da saúde mental também possui aspectos de urgente apelo à ciência. Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em setembro de 2018, indicam que os suicídios no país aumentaram 2,3% entre 2015 e 2016, ou seja, um caso a cada 46 minutos, num total de 11.433 mortes.

Nesse contexto, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) segue mantendo seu histórico consistente de apoio à pesquisa em saúde pública, com financiamento de projetos que passam pela peneira dos seus editais, respondendo a critérios de qualidade científica e relevância social. Dois deles, em curso atualmente, tratam de abordagens inovadoras em relação aos esforços clínicos na busca por perspectivas de prevenção ao suicídio.

Avanço Tecnológico

“Existem indicadores clínicos do risco de suicídio, como comportamento, histórico de vida, condição psiquiátrica diagnosticada, e da perspectiva dos marcadores biológicos, existem algumas pesquisas que tentam identificar marcadores no sangue, por exemplo, que possam estar alterados, de acordo com o estado do paciente. E o que a gente tem investigado diz respeito a alterações do ritmo biológico”.

Quem explica é Tiago de Andrade, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Alagoas (Famed Ufal). O biólogo tem doutorado nas áreas de fisiopatologia médica e Biologia Molecular.

No momento, com apoio da Fapeal, ele coordena a investigação de uma inquietante sazonalidade detectada nas ocorrências de suicídios no mundo inteiro. Análises computadorizadas de grandes volumes de dados (big data) detectam um padrão planetário de maior frequência de casos entre o final da primavera e o começo do verão.

No Brasil, especificamente, localizado mais perto dos trópicos, os casos se dão com mais intensidade no limiar do verão, no mês de dezembro; o padrão sazonal é menos definido no Norte-Nordeste, mas se intensifica à medida em que os dados analisados se aproximam do Sul do país.

“Big Data é importante para extrair padrões que não são detectados quando se tem poucos dados. Por exemplo, se você pega municípios individuais, nem sempre você consegue extrair padrões sazonais, mas quando você forma conjuntos de dados grandes, englobando o país, por exemplo, um padrão emerge. Daí a importância de grandes dados e da metodologia certa para abordá-los” aponta Tiago.

Daniel Coimbra, doutor e também pesquisador do Centro de Medicina Circadiana da Famed Ufal, destaca o uso da metanálise, uma metodologia bem delimitada que consegue reunir as informações publicadas de outros pesquisadores. “Nós utilizamos dados de autores de vários países sobre a sazonalidade das tentativas de suicídio e, a partir daí, construímos esse perfil sazonal do que está acontecendo em todo o mundo”, expõe o biomédico.

“Estamos realizando alguns trabalhos em colaboração com outros grupos, tentando delimitar alguma variável que seja importante para esta incidência na primavera/verão e, neste caso, temos visto fortes evidências do papel da incidência e duração da luz do dia como agentes moduladores da sazonalidade do suicídio”, comenta Daniel.

Sazonalidade

Ocorrências de suicídio no brasil 2010-2016. Perfil sazonal com menor ocorrência em junho, e maior ocorrência em dezembro.

Ritmo biológico é um fenômeno que faz parte dos processos naturais do organismo. O mais conhecido é o ritmo circadiano, composto pelos fenômenos cíclicos em torno de um período de 24 horas.

Nosso ciclo de vigília e sono é o exemplo mais evidente disso: é num período de aproximadamente 24 horas que pessoas normalmente estabelecem seus momentos de dormir (quando escurece) e estar acordados (ao clarear). Mas existem vários outros ritmos fisiológicos, comportamentais e cognitivos, que estão associados ao ritmo circadiano.

Algumas pesquisas sugerem uma correlação entre alterações deste ritmo circadiano e transtornos mentais, especialmente transtornos do humor. “A gente supõe que existem fatores sazonais que de alguma forma modulariam o comportamento suicida, ninguém sabe ainda por que; uma hipótese é que, como o ritmo circadiano é modulado pela luz e a incidência e duração da luz muda ao longo do ano, isso poderia, de alguma forma, estar modificando o funcionamento cerebral de pacientes com susceptibilidade”, explica o professor Tiago de Andrade.

“Estamos tentando testar e gerar novas hipóteses com base no que a gente pesquisa em pacientes, com financiamento da Fapeal, e em modelos animais, com financiamento do CNPq”, resume o docente.

A busca por novos fármacos

Outra pesquisa de potencial auxílio à área psiquiátrica que está sendo conduzida atualmente com recursos do Governo do Estado, diz respeito ao uso do neurotransmissor ácido gama-aminobutírico, conhecido como GABA.

Análises internacionais já sugerem que determinadas concentrações desta substância em áreas específicas do cérebro estão ligadas à função de regular pensamentos negativos e indesejáveis.

Em pessoas cujo funcionamento mental está dentro do padrão mais comum, este tipo de pensamento também ocorre, mas não com frequência e intensidade que caracterizem adoecimento mental: é possível afastá-los “naturalmente”, por assim dizer.

No entanto, em pessoas com quadros psiquiátricos, como depressão e estresse pós-traumático, por exemplo, esse tipo de pensamento assume uma natureza intrusiva e cíclica, cuja incidência tende a se expressar através de condições bioquímicas no cérebro.

Trazendo esse conhecimento para Alagoas, o professor Jaim de Oliveira, farmacêutico e doutor em Biologia Celular e Molecular do Centro Universitário Tiradentes (Unit) coordena a pesquisa intitulada “Revisão sistemática e metanálise do uso do GABA como um possível Biomarcador na prevenção do Suicídio”.

 

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