Projeto apoiado pela Fapeal analisa aspectos no entorno do Velho Chico

Trabalho de pesquisa terá a duração de um ano e traçará estratégias dentro de um planejamento estrutural e hidráulico

Num período em que vários projetos voltam seus estudos para o melhor aproveitamento da água no entorno do Rio São Francisco, destaca-se uma pesquisa que, ainda em estágio inicial, enfoca infraestrutura, ecologia e o aspecto socioeconômico da cultura do rio.

Enquanto um edital anterior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) foi voltado para estudos em nível de doutorado sobre a condução e aperfeiçoamento do uso da água e energia do Canal do Sertão para a agricultura do semiárido alagoano, uma iniciação científica do Centro Universitário Tiradentes (Unit) busca não apenas remediar as consequências, mas tentar sanar a problemática desde onde ela nasce.

Numa proposta inovadora, o projeto visa uma análise do correto dimensionamento dos vertedores em barragens e suas influências ecológicas e socioeconômicas, utilizando a Hidrelétrica de Xingó como case.

A pesquisa abordará especialmente aspectos técnicos, com ênfase em compreender e propor alternativas para o problema de escassez no abastecimento de água, que culmina na baixa produção de energia elétrica, incluindo. Entretanto, a inclusão de um olhar para as questões ambientais e danos sofridos pela área, contempla também a população local, que tem a cultura do rio como atividade de sobrevivência.

O estudo é apoiado com uma das 15 bolsas concedidas à Unit pelo Governo de Alagoas, através da Fapeal, estendendo à rede privada de Ensino Superior o mesmo incentivo à pesquisa que já é dado para os estudantes das instituições públicas estaduais e federais.

O coordenador do projeto, professor Djair Silva, em conjunto com a sua bolsista e aluna de engenharia civil, Jéssica Dantas, vêm observando as grandes áreas abarcadas pela pesquisa. O vertedor é um mecanismo da hidrelétrica de Xingó que tem a capacidade de controlar a vazão da água e funciona como comporta. Porém, com a escassez de chuvas desde 2009, os vertedores da usina estão fechados e isso causa consequências tanto ecológicas como socioeconômicas. A falta abastecimento naquela região impacta em atividades como a pesca e a agricultura local.

“Na hidrelétrica, as comportas funcionam como os vertedores, portanto toda a atenção dada à questão do fechamento da bacia e suas causas. Este é um momento conveniente e propício para se vivenciar a pesquisa”, explica o orientador.

A análise se dividirá em duas etapas: na primeira, será feita toda a modelagem de vazão, o cálculo, e dimensionamento dentro do laboratório, do qual Unit dispõe, com os aparatos para dimensionar o tipo de vertedor e como determinar a vazão. Na segunda, a bolsista se deslocará até a usina hidrelétrica de Xingó, afim de, com o projeto em mãos, verificar como eles controlam a vazão.

“Dependemos muito das visitas técnicas para contornar melhor a dificuldade acerca da composição das análises. O que podemos falar hoje, com mais convicção, são os impactos visíveis, os sociais e ecológicos que conseguimos a partir de estudos bibliográficos referenciais”, alega a jovem pesquisadora.

Contextualizando

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Djair Silva e Jéssica Dantas. Foto: T. Cabral

A Usina de Xingó abastece Alagoas e Sergipe e com o déficit em sua produtividade, há a escassez de água e aumento das contas de energia. Tudo isso devido a não abertura das comportas, problema que reflete nos dois estados.

“Propondo uma análise da problemática, entende-se que, a falta de chuvas não implica apenas na diminuição dos reservatórios. Com a ausência de água em fevereiro, reduziu-se a vazão das turbinas de 900 para 800 m cúbicos de água. Passando-se menos água a produção de energia irá consequentemente reduzir, mas porque reduzir a vazão? Em função da quantidade de água que não é suficiente. Todo o trabalho que vamos pesquisar volta-se aos vertedores, pois regulam a vazão e possuem impacto na geração de energia”, explica Djair Silva.

Quanto ao aspecto ecológico do estudo, os pesquisadores irão avaliar os prejuízos e as possíveis ações de resgate, ou de melhor aproveitamento e reutilização de materiais extraídos, ou no aperfeiçoamento de seu uso.

Um modelo de ligação inteligente da água já é empregado em agricultura de precisão, através de dispositivos que podem ser instalados no campo e em áreas para o cultivo. Quando o solo atinge a umidade ideal para o cultivo, automaticamente desliga-se a emissão de água. Esta é uma alternativa na utilização da água para irrigação, porém, há uma segunda problemática, a questão da transposição do rio. A condução de água só pode ser feita quando o rio encontrar-se saudável e em grande fluxo, permitindo a atividade, o que não ocorre atualmente.

Consequências

Atualmente, fenômenos antes atípicos estão mais frequentes, o que ocorre no encontro do rio com o mar. A água do mar está invadindo o rio e mudando todo o ecossistema da região. Um conjunto de agentes provoca a perca no volume do rio e da qualidade de sua água, tendo em vista que o São Francisco, há 50 anos, possuía água doce, que se misturava ao mar.

Hoje, a área sofre sérios danos com a salinização da água. Observam-se perdas e até mesmo o desaparecimento de algumas espécies de peixes, crustáceos e vegetação naquele ponto do rio.

Muitos agricultores também utilizavam a água para irrigar as plantações de arroz, na região de Penedo e Piaçabuçu. Porém, hoje, isso não ocorre mais devido à salinização, que reflete igualmente na atividade da pesca, culminando em prejuízos aos ribeirinhos locais.

A ideia dos pesquisadores, após a conclusão da primeira fase, é estender o projeto afim de ampliar o escopo da pesquisa para a parte ambiental preventiva,  abrangendo toda a bacia hidrográfica, analisando igualmente a viabilidade de haver aumento na vazão  e quais os efeitos desse o aumento, como proposta de intervenção.

Enquanto isso, a Fapeal continua apoiando a disseminação de estudos sobre água e energia para o interior do estado, onde se encontram áreas estratégicas como Delmiro Gouveia.

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