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Fapeal em Revista: “Kit de tratamento precoce é um absurdo e não faz o menor sentido”, diz Dimas Covas

Diretor do Instituto Butantan criticou o negacionismo presente e apontou erros que colocaram o Brasil na vice-liderança no ranking de óbitos por Covid_19

Deriky Pereira com SBT jornalismo

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, fez duras críticas ao chamado “kit de tratamento precoce” contra a Covid_19. Durante entrevista ao programa “Poder em Foco”, exibido pelo SBT na madrugada de domingo (24) para segunda-feira (25), o médico criticou o negacionismo e o fato de darem remédios sem comprovação científica para as pessoas, o que causa uma falsa proteção sobre o novo coronavírus. A Fapeal em Revista acompanhou a entrevista e apresenta, a partir de agora, alguns destaques do programa.

“A falta de uma organização central deixou os estados cada um por si. Cada estado teve uma estratégia diferente no combate à pandemia. Em outros estados, inclusive, o negacionismo ainda impera. Essa questão do kit de tratamento precoce isso é um absurdo, não faz o menor sentido, não tem sentido científico e médico nenhum. Isso é uma enganação. Dar remédio pro povo que não tem efeito contra a infecção cria uma ilusão de proteção que não é real”, criticou.

Além desse ponto, Dimas Covas também citou que negar a gravidade da pandemia foi outro erro crucial que levou o país ao quadro em que se encontra: “O primeiro erro foi menosprezar a gravidade da pandemia. E ainda não sei se continuamos a menosprezar porque a todo momento vemos que as medidas não são tomadas de forma efetiva. Aqui as medidas não foram, de fato, tomadas na intensidade que deveriam ter sido”, disse.

Para o médico, o Brasil vive uma segunda onda da Covid_19 que pode apresentar resultados ainda piores que os da primeira: “Mais de 200 mil mortos, quer dizer, temos uma situação caótica na saúde pública do Brasil, o que está acontecendo lá em Manaus e vai acontecer em outros lugares se não forem tomadas medidas. E estamos vivendo agora o início de uma segunda onda que até esse momento indica que vai ser maior que a primeira. Tudo indica que vamos ter nesse final de janeiro e começo de fevereiro o ponto mais alto da epidemia de todo o período anterior”, lamentou.

Doses e imunização

Roseann Kennedy entrevista Dimas Covas

Perguntado sobre possíveis contratempos na produção de uma nova leva de vacinas por conta de atrasos no recebimento dos insumos que vêm da China, Dimas Covas declarou que a primeira dose já tem efeito e que a segunda vem para reforçar o efeito da primeira.

“Se for a 28 dias, que é o período ideal, ótimo. Se for a 30, 35 dias, vai continuar tendo efeito imunológico. Não há clareza quanto à duração da imunidade protetora. Da imunidade de curto prazo, 4, 5, 6 meses, saiu imunidade precisa. Agora, não sabemos se ela persiste 12 meses porque nenhum estudo chegou a isso, pra nenhuma vacina isso é conhecido. Essa imunidade de 4 a 6 meses, sim, alguns estudos já têm essa possibilidade de análise”, disse.

Covas disse ainda sobre a quantidade de doses da CoronaVac destinadas ao governo federal: “O único compromisso que temos com o Ministro da Saúde do Brasil são 46 milhões de doses. Até oferecemos mais, 100 milhões de doses, mas não houve a contratação além dessas 46. Então o nosso compromisso são as 46 milhões, se o ministério manifestar interesse, podemos ampliar isso em mais 54, atingindo 100 milhões de doses, mas isso ainda não aconteceu.”

Temos vacina? Então vamos vacinar o maior número de pessoas!”

Ele defendeu que nenhuma medida burocrática deve atrasar o processo de vacinação, pois somente ela vai proteger a vida das pessoas. “A vacina precisa sair da prateleira assim que autorizada e ir pro braço do brasileiro que é lá que ela vai proteger quanto à doença. Não é admissível que vejamos todo dia mais de mil pessoas morrendo pela gravidade da doença com vacinas paradas. Isso eticamente é impossível de se admitir. Eu, como médico, ficaria revoltado se isso tivesse acontecendo. Acho que a decisão é essa: tendo vacina? Vamos vacinar o mais rápido possível. As vacinas estão aí, precisamos usar. Isso é eticamente necessário”, frisou Covas.

O diretor disse ainda que o correto, em sua visão, seria vacinar o maior número de pessoas possível, sem fazer reserva alguma de doses para outro momento. “Eu, como médico, questiono que, se eu tenho um tratamento, uma vacina que pode proteger um grande número de pessoas, não tem sentido reservar essas vacinas para uso posterior. O correto, eticamente, seria vacinar as pessoas possíveis com essas vacinas e correr atrás da segunda dose. Como isso é progressivo, quando chegar o momento da segunda dose, as vacinas estarão aí para a segunda dose”, salientou Dimas Covas.

Confira a entrevista completa aqui.