Com transmissão de mãe para filho, infecção pode causar malformações no sistema nervoso do feto
Deriky Pereira com Jornal da USP
Atenção, grávidas! O vírus oropouche pode causar malformações no sistema nervoso do feto. Foi o que mostrou uma revisão de estudos científicos que apontou novas evidências de transmissão vertical, ou seja, da mãe para o feto com infecção de células placentárias e possíveis comprometimentos neurológicos graves para o embrião e o feto, como abortos, anomalias congênitas e óbito fetal e pós-natal.
O estudo, publicado no The Journal of Maternal-Fetal & Neonatal Medicine, recomendou a inclusão do vírus nos protocolos de sistemas de saúde para diagnóstico diferencial em gestantes, já que os sintomas podem ser semelhantes a outras doenças transmitidas por insetos como a dengue, zika ou a chikungunya. O assunto foi destaque da edição de número 369 do Minutos da Ciência, publicado nesta terça-feira (3) nas redes de Fapeal e de Fapeal em Revista, clique aqui e assista.
Transmissão
O vírus oropouche foi isolado no Brasil pela primeira vez em 1960, a partir de uma amostra de sangue de um bicho-preguiça capturado durante a construção da rodovia Belém-Brasília. No ciclo de transmissão urbana os seres humanos passam a atuar como principal reservatório do vírus. Além disso, ele pode ser transmitido por dois tipos de insetos: o mosquito pólvora ou maruim e, mais raramente, por pernilongos do gênero Culex.

Segundo o médico e professor Geraldo Duarte, do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina (FM) da USP e um dos pesquisadores envolvidos no estudo, os efeitos da infecção na gestação ainda estão em fase inicial de compreensão. “A prática clínica e exames laboratoriais indicam que o vírus é capaz de infectar células da placenta, alcançar o feto e comprometer o sistema nervoso central”, afirmou.
Vale destacar ainda que, em agosto de 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) publicou nova atualização sobre a febre oropouche nas Américas, divulgando os números da doença em 20 Estados brasileiros, com maior incidência no Espírito Santo (6.322), Rio de Janeiro (2.497) e registro de cinco mortes, além de casos de complicações neurológicas e óbitos fetais sob investigação.
Abortos e natimortos
Outra pesquisa de revisão, publicada numa revista espanhola, alertou para casos de gestantes infectadas que evoluíram para abortos espontâneos e natimortos. Naquelas situações, amostras da placenta e do sangue do cordão umbilical testaram positivo para oropouche e negativo para outros arbovírus.
O mesmo estudo também descreveu quatro casos de recém-nascidos com microcefalia, nos quais o líquido cefalorraquidiano apresentou anticorpos contra o vírus oropouche, sem evidências de infecção por outros arbovírus. Isso acontece porque mesmo que a placenta seja uma barreira natural que protege o bebê de muitas infecções virais da mãe, alguns vírus – incluindo o oropouche – conseguem driblar esse sistema de defesa.
Manual
Vale reforçar que ainda não há medicamentos antivirais específicos para o tratamento do oropouche, sendo necessário ter um bom manejo clínico. Pensando nisso, a Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia, em parceria com o Ministério da Saúde, elaborou um Manual com autoria do professor Duarte e de outros pesquisadores.
A publicação é uma iniciativa da Federação Brasileira de Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) em parceria com o Ministério da Saúde.
