Material é considerado ameaça silenciosa para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos
Deriky Pereira

A chegada do Carnaval mexe com diversas pessoas, das mais variadas formas: uns gostam da tranquilidade, aproveitam para relaxar ou viajar; enquanto outros, vão à festas, blocos e correm atrás dos trios, fantasiados ou não, mas geralmente com brilho. Muito brilho. E é sobre este brilho, em especial o glitter, que o programa de número 365 do Minutos da Ciência fala ao trazer um alerta: o glitter que você usa no Carnaval pode ameaçar a vida marinha, clique aqui e acompanhe completo.
Fabricado a partir de filmes plásticos como o polietileno tereftalato (PET) ou PVC, revestidos com alumínio, o glitter tradicional é um microplástico que representa uma silenciosa ameaça para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. E a contaminação é simples: quando você lava o rosto ou o corpo, o glitter vai pelo ralo. Como são muito pequenos, os microplásticos não conseguem ser filtrados pelas estações de tratamento de esgoto, chegando ao mar de maneira inevitável.
Uma vez em ambiente marinho, o glitter é ingerido pela fauna aquática, que confunde o brilho com alimento e a ingestão afeta o crescimento, alimentação e a sobrevivência desses animais. Foi o que mostrou um estudo publicado na Environmental Sciences Europe ao apontar que as partículas do glitter atuam como superfícies de nucleação, o que acelera a formação de cristais de carbonato de cálcio num processo chamado biomineralização.
Esse processo é crucial para a sobrevivência de corais, moluscos e ouriços-do-mar usam que usam esses cristais para construir suas conchas e esqueletos, mas a interferência do glitter pode comprometer a integridade estrutural deles. E mais: a formação desses cristais na superfície do glitter causa a fragmentação do microplástico em pedaços ainda menores, os nanoplásticos, que são praticamente impossíveis de serem removidas do ambiente e possuem maior capacidade de penetrar tecidos biológicos, intensificando a ameaça à vida marinha, como mostrou o Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo).
E o glitter biodegradável?
Pensando nisso, o mercado respondeu com a produção de um glitter biodegradável, por vezes feito com um núcleo de celulose regenerada, mas… A versão ecológica também pode causar prejuízos significativos, especialmente em ecossistemas de água doce. Outro estudo, publicado no Journal Of Hazardous Materials, mostrou que o glitter de celulose dobrou a presença de caramujos não nativos, um sinal de desequilíbrio na cadeia alimentar.
E isso se dá porque o revestimento metálico e as camadas de acabamento plástico ainda presentes em versões eco-friendly retardam o processo e mantêm a toxicidade, ou seja, o glitter biodegradável não deve ser usado de qualquer forma, pois seu impacto nos oceanos ainda causa preocupação.
Mas se você não abre mão do glitter no Carnaval, se liga: nunca lave diretamente no chuveiro ou na pia; remova com óleos, lenços ou algodão e descarte no lixo comum e, se possível, use maquiagens naturais ou quaisquer outros materiais brilhosos que não tenham plásticos em sua formação.
